terça-feira, 17 de novembro de 2015

"Tem alturas que sou eu que preciso de um psicólogo"

Ao ver esta reportagem da Sic Noticias, que por mera coincidência apareceu numa pesquisa, um turbilhão de sentimentos afloraram e pela primeira vez ganho coragem para falar de tudo o que há por detrás dos processos de adoção que não são dados a conhecer a quem neles entra de corpo e alma.
Agora que tudo para mim já passou, 1 ano e meio depois delas terem vindo viver cá para casa, é sem qualquer medo de represálias por parte do sistema que posso falar dos processos fabricados que são apresentados aos adotantes escondendo os reais problemas das crianças, o desapropriado período de conhecimento e interação entre as partes, a extrema falta de profissionalismo/conhecimentos e inclusive tacto das assistentes sociais, os apregoados apoios pelo sistema que não existem, a burocracia, o centralismo na criança excluindo de todo os adotantes, a falta de visão que cada criança é um caso e cada adotante é um ser individual e próprio, não falando dos relatórios finais completamente desfasados da realidade em que é exaltado o esplendoroso trabalho dos serviços sociais na integração da criança chegando mesmo a serem falsos...
Mas todo este processo cansa, satura, retira energia e vontade, que só desejamos que chegue ao fim e, casos como nós, deixamos de fazer frente ao sistema.

O lema prende-se muito com: "Tomem lá as crianças e desenrasquem-se!", pelo menos este foi o nosso caso.
Nunca nos foi dado qualquer tipo de apoio, quer de um conselho ou de outro nível, pelo contrário fomos constantemente julgados por todas e qualquer atitudes que tivéssemos. 
O sistema está habituado que pais adotantes se calem por medo! Medo de represálias, medo que lhes tirem as crianças que eles tanto desejaram e apesar de todas as contrariedades que encontram calam, vivendo em sofrimento o resto da vida.
Nós não fomos de calar, nós gritámos, discutimos, pusemos em causa, acusámos e se houvesse porventura um questionário de satisfação sobre o apoio/serviço o mesmo seria negativo.
Agora que tudo passou deparamos-nos com os problemas que nos foram escondidos, aqueles com que teremos de viver como parte da nossa vida para o resto da nossa vida, como assim o decidimos.

Quem está dentro do sistema conhece mais casos como o nosso, aqueles que nunca falam nas noticias, casos que correram mal, casos de adotantes que pediram apoio e foi recusado, casos de adotantes que foram rebaixados como ser humanos justificando-se o sistema que é  "obrigação adotar".

Em parte alguma do processo me souberam dizer: "Parabéns pela vossa coragem, têm todo o nosso apoio!"

Apesar de tudo o que correu mal, e de tudo o que ainda está para vir e para a qual teremos que ter muita força para ultrapassar, eu adotava de novo. Sem qualquer dúvida ou hesitação.
Porque agora já não estou cega e conheço o sistema quase tão bem quanto ele.

Mas a mágoa deste ano e meio ficou-me marcada como uma tatuagem que nunca sairá da minha pele e o assalto à minha pessoa e à minha casa tiraram parte de mim.
Porque virem estranhos à nossa casa, virarem as gavetas das miúdas e perguntarem quem deu a roupa assemelha-se muito a uma violação...